“Como assim você não pode comer lanche?”

Se o que você come diz muito sobre você, o que você deixa de comer diz muito mais. São inúmeros os fatores para alguém não se alimentar “normalmente”, como dietas, alergias, religião e estilo de vida.

Os vegetarianos não comem carne por escolha, os intolerantes a lactose não bebem leite por imposição de seu próprio organismo e há ainda aqueles que seguem uma dieta restritiva por serem atletas ou simplesmente por desejar perder peso. Seja qual for o motivo, há muitas pessoas que não comem tudo o que querem ou que poderiam comer.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), cerca de 9% da população brasileira tem algum tipo de alergia alimentar. Os principais alimentos envolvidos são trigo, ovos, leite de vaca e frutos do mar. O jornalista Giovani Vieira, de 22 anos, é alérgico ao último, mas já teve alergia a aromatizantes e corantes de diversos tipos durante a adolescência.

Eu tinha 12 anos e fiquei indo e voltando do hospital quase um ano. Ninguém sabia qual era o meu problema. Continuava com meus hábitos alimentares, até que fui parar na UTI. Tive uma inflamação séria no coração, foi quando descobriram que eu tinha alergia a certos corantes e aromatizantes de produtos industrializados”, conta.

Com o passar do tempo, a alergia diminuiu e Giovani agora pode comer quase tudo, menos frutos do mar. Apesar disso, ele ainda tem receio de comer algo que faça mal. “Desde 2012 eu fui liberado [para comer produtos industrializados], mas fiquei quase um ano para voltar a comer normalmente. Hoje, ainda tenho receios, mas aos poucos eles diminuem”, diz.

Enquanto Giovani pode voltar a comer normalmente, a economista Carolina Ferro, de 24 anos, descobriu há um ano que tem alergia a uma proteína do leite. “Fiquei meio desanimada, mas não foi tão chocante porque há três anos eu já tinha intolerância à lactose, o que me fazia evitar o leite puro e diminuir a frequência de queijos e iogurtes”, explica.

O cuidado com a saúde supera a vontade de comer os alimentos proibidos. “Sinto falta de comer pizzas, lanches, sorvete. Mas me sinto melhor quando não ingiro o que me faz mal, mais saudável e disposta. Dá para sentir que o organismo funciona em harmonia e como um todo, isso é o mais importante”, ressalta. Giovani concorda. “Uma coisa engraçada é que até 2004 [ano em que descobriu as alergias] eu nunca tinha comido um McDonald’s. A partir daí eu não podia comer por causa das alergias e até hoje eu nunca comi um lanche de lá. As pessoas acham estranho, mas eu lembro de que estava na lista [de alimentos proibidos] e ainda tenho receio de comer, prefiro me manter saudável”.

Restrições e saúde

Buscar uma vida saudável é o principal motivo para que o personal trainer Fernando Santa Rosa, de 30 anos, siga uma dieta restrita e um cronograma de exercícios. “Nesse momento, estou fazendo dieta de muita proteína e pouquíssimo carboidrato. Faz sete semanas que estou fazendo essa dieta com a intenção de diminuir ao máximo minha gordura corporal, para maior definição muscular”, conta.

Fernando afirma que suas dietas variam. Às vezes ele chega a comer só clara de ovo, batata doce e alimentos integrais, em outros momentos come algumas “besteiras”, mas sempre controla a alimentação. Para a professora de nutrição da Universidade do Sagrado Coração (USC), Rita Chaim, o importante é manter o foco. “Você tem que ter filosofia, entender o contexto. Não adianta comer uma castanha por dia e chegar o final de semana e ir para o boteco beber e comer gordura. Um anula o outro.”, explica.

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Um dos obstáculos para seguir a dieta, seja ela opcional ou por doença, são os eventos sociais. Giovani deixou de sair com amigos por causa de suas alergias. “O contato social foi o mais complicado. Você vai sair com uma pessoa, ela vai comer alguma coisa industrializada, não tem como. E você tinha que ficar olhando. Então isso foi o maior complicador. Muitas vezes deixei de sair, deixei de me relacionar com as pessoas”, conta. Para Fernando, equilibrar dieta e vida social também não é fácil. “É muito complicado sair para passear, sair com os amigos. Pois é difícil achar lugares onde sirvam comidas saudáveis”, diz.

Carolina não sente isso. “Muito pelo contrário, me senti muito acolhida. Minhas tias sempre preparam alguma coisa especial para mim, do tipo adaptada com substituições que me permitam comer a mesma coisa que todos. E meus amigos, quando saímos, pedem para eu escolher o que vamos comer. Fico tocada com as atitudes, mas também incomodada. Não gosto que eles deixem de comer o que querem por mim”.

A hora de fazer compras em supermercados também pode ser uma dificuldade para quem tem alguma restrição alimentar. “A dificuldade é mais em encontrar os alimentos que se adequem à minha dieta, como biscoitos, pão, torrada, barrinhas de cereal, coisas que são práticas para deixar na bolsa para quando bater uma fominha no meio da tarde”, conta Carolina. A professora Rita alerta para a necessidade de saber o que se compra no mercado. “Esse é o segredo: tem que saber ler rótulo. Alguns vêm escrito ‘pode conter traços de’, porque às vezes, no equipamento fica um resto de outro alimento. Por exemplo, eu faço bala de chocolate, de banana, tudo no mesmo lugar, então na hora que você mistura o componente, pode ter traços, algumas pessoas são muito sensíveis, então melhor prevenir”, explica.

Outro lado

Laura*, 21 anos, também tem uma relação especial com a comida, mas nesse caso, ela sofre por comer demais. Laura tem compulsão alimentar, ou seja, quando fica muito ansiosa, come sem parar. “Eu não sei exatamente quando começou [a compulsão].Tenho isso desde sempre. Acontece muito com mudanças. Eu acho que foi numa mudança de colégio, lá pela quinta ou sexta série, que começou. Eu já era gordinha, mas foi aí que começou a compulsividade”, relata.

Para ela, a restrição alimentar é uma necessidade. “Faz um tempo que tenho frequentado uma academia e procurei uma endocrinologista para fazer acompanhamento com nutricionista. Nunca deixei de tentar acompanhar meu problema, a gente sempre tenta e desiste”, conta.

O acompanhamento médico também faz parte da vida de Giovani. “Hoje me consulto uma vez por ano com um nutricionista e com um endocrinologista para saber se está tudo bem”, diz. Fernando ressalta a importância do acompanhamento durante qualquer dieta. “Dietas não se pegam na internet e pronto. São um conjunto de fatores como treino, alimentação e descanso que irão ajudar no que as pessoas querem”.

A restrição alimentar de uma pessoa pode influenciar muito o modo como ela vive. Para Laura, o mais difícil de lidar são os julgamentos. “Eu percebo que tem o julgamento dos dois lados. Antes, quando eu comia demais, alguns mostravam um olhar de ‘nossa, não precisava disso’. Agora, vejo algumas pessoas me olhando ‘ah, agora tá querendo pagar que tá comendo direito’. É bem difícil deixar isso para trás, mas temos que tentar melhorar”, reflete.

Giovani também sofreu no início da faculdade. “Como eu não podia tomar bebidas alcóolicas, nos meus dois, três anos de faculdade, não fui a nenhuma festa, porque todo mundo estaria bebendo e eu não podendo beber, uma festa é o momento para beber e se distrair. Acabei recusando esses convites e às vezes passando por chato”, relembra.

A personalidade das pessoas pode mudar a partir de sua restrição alimentar. Laura conta que mudou muito desde que desenvolveu sua compulsão. “Antes, todo mundo dizia que eu era super alto astral. Agora não. Agora não tenho vontade de levantar da cama, agora não tenho vontade de fazer mais nada. Eu estou sempre meio doente e nunca melhoro. Alto astral e vontade de viver, isso eu não tenho mais”.

“O fato de você ter que tomar determinadas decisões porque essas decisões podem afetar seu pessoal, acho que você acaba antecipando uma fase de maturidade e não sei se foi bom ou ruim, o fato de eu antecipar isso por causa da alimentação. Não foi só por causa disso, mas você percebe que você adquire certa maturidade que talvez as outras pessoas não consigam ter, porque você não vai na festa, então você tem que fazer alguma coisa, então você acaba focando em outras coisas, se tornando mais responsável”, diz Giovani.

 *Laura é um nome fictício, pois a fonte pediu para não ser identificada.

Reportagem: Isis Rangel

Produção: Jéssica Santos

Edição: Annelize Pires

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