Bauru concentra sabores e culturas

Existe um prato genuinamente bauruense? Quais são as tradições culinárias do centro-oeste paulista? São perguntas importantes para aqueles que procuram atribuir alguma identidade à culinária do município. Porém, as respostas podem ser um pouco frustrantes.

Foi na época do boom do café, no final do século XIX, que cada povo trouxe na bagagem um pouco de sua cultura culinária. “Nesta época, houve uma mistura de hábitos culinários, o que fez com que não criássemos uma identidade nossa”, afirma Denise Amantini, empresária e chef gastronômica. Segundo Denise, mesmo aquilo que chamamos de “comida caipira”, como o feijão tropeiro e o virado à paulista, são pratos originários da mistura de  hábitos de migrantes que vieram para o centro-oeste paulista.

A chef de cozinha tem uma visão mercadológica sobre a gastronomia bauruense. Créditos: LEONARDO ZACARIN

A chef de cozinha tem uma visão mercadológica sobre a gastronomia bauruense. Foto: Leonardo Zacarin

 

Isso não significa que não existe um padrão naquilo que o bauruense come. Aliás, este padrão mudou bastante durante o tempo. No início do desenvolvimento da região, não havia restaurantes e nem grande variedade de alimentos. Faziam parte da maioria das refeições o angu, a polenta, receitas com milho e mandioca, resultando em alimentos mais gordurosos. “Melhoramos nossa variedade, mas não somos mais saudáveis. Apesar de, antigamente, consumir alimentos mais calóricos, as pessoas andavam bastante o tempo todo, não havia carro nem muitos meios de transportes, então a saúde era menos prejudicada”, explica Denise.

A cidade do lanche?

Quase todo mundo sabe da história do lanche bauru. O estudante bauruense Casemiro Pinto – apelidado de Bauru na capital -, pedia sempre o mesmo sanduíche em um estabelecimento de São Paulo. Pão francês com rosbife, tomate, picles e porções iguais de queijo prato, suiço e estepe eram os ingredientes. Com o tempo, a iguaria levou o nome de Bauru e ficou famosa por todo o país. A partir de então, a cidade fez de tudo para que o lanche fosse a identidade de sua população. Uma lei foi criada para “regularizar” o verdadeiro Bauru, alguns empresários investiram no marketing e parte dos moradores aderiram à ideia.

Mas será que isso é o suficiente para dizermos que o bauru é uma comida típica de Bauru? Denise acredita que não. “Em primeiro lugar, o lanche não foi nem criado aqui. Além disso, muitos ingredientes da receita original não eram populares no consumo do bauruense”, explica ela. Ainda hoje, os ingredientes originais são substituídos geralmente por outros mais simples. Por exemplo, o rosbife constantemente é trocado por presunto e a mistura dos três queijos é substituída pelo mussarela.

Prato nosso de cada dia

O que o bauruense come

No café da manhã a gente toma café com leite. No almoço faço arroz, feijão, uma carne e uma salada de legumes ou de folha. Na janta é a mesma coisa. E todo dia a gente repete a mesma rotina”. Estes são os hábitos alimentares da feirante Ilva Gordo, e representam a rotina da maioria dos bauruenses. A equipe do Repórter Unesp fez uma rápida pesquisa para descobrir quais são os pratos que não podem faltar na mesa do bauruense. Quase todos os entrevistados responderam que arroz, feijão e algum tipo de salada são consumidos todos os dias.

De fato, uma pesquisa do IBGE divulgada em 2011 mostra que o arroz e o feijão são os alimentos mais presentes na refeição dos moradores do sudeste do Brasil. Em relação à salada, Denise Amantini aponta um fator que pode influenciar o consumo. “O clima influencia muito nos hábitos culinários da população. Como Bauru é uma cidade muito quente, as pessoas procuram saladas, frutas e sobremesas leves”, explica.

Os costumes gastronômicos também estão associados à história de um determinado povo. A cidade de Bauru, por exemplo, se desenvolveu a partir do cultivo de café. Assim, é comum que até hoje os moradores do interior paulista consumam bastante o produto. “Os migrantes e imigrantes que vieram ao Brasil trabalhar com café fizeram com que o consumo do produto crescesse muito e virasse um hábito entre a população local”, afirma Denise.

Elencar os padrões culinários de um povo é possível, mas esses hábitos estão em constante evolução e são alterados com o tempo. A própria Denise dá um conselho aos donos de restaurantes.“É preciso sempre inovar, sair da mesmice, alterar o cardápio. Caso contrário, o estabelecimento pode fracassar”, conclui a chef.

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Reportagem: Renan Fantinato

Produção: Leonardo Zacarin

Edição: Mayara Abreu Mendes

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